Formação de Formadores · Trabalho Individual

E‑Portefólio
Reflexivo

Percurso de vida, competências pedagógicas
e o caminho até ao RVCC‑For

Nota introdutória

Este e-portefólio nasce de um duplo propósito. Por um lado, constitui o trabalho de avaliação da atividade transversal do curso de Formação Contínua de Especialização de Formadores – Formador de Formadores. Por outro, foi deliberadamente construído como se eu própria fosse candidata a um processo de RVCC-For, pois só me colocando no lugar de quem um dia vou acompanhar consigo compreender, por dentro, o que se pede a alguém que reconstrói o seu percurso de vida à luz de um referencial de competências.

Por isso, este documento não se organiza por unidades de formação ou por disciplinas, mas por áreas de significado: a minha história, o processo que estudei, a reflexão sobre o que vivi como formanda, as evidências de aprendizagem que fui produzindo ao longo do curso, e uma projeção sobre como aplicaria tudo isto ao acompanhar um futuro candidato.

Retrato de uma formadora sentada numa secretária, com um portátil a mostrar gráficos, num escritório partilhado.
Mapa do e-portefólio: seis etapas, do percurso de vida à autoavaliação final.

01 Percurso de vida

O meu percurso é, acima de tudo, o resultado de escolhas feitas de forma consciente, e por vezes corajosa, mesmo quando isso significou recomeçar em pontos da vida em que muitas pessoas já dão o caminho por traçado.

Licenciei-me em Direito, curso que complementei com duas pós-graduações: uma em Direito das Autarquias Locais e outra de acesso ao Notariado Privado. Mais tarde, o meu interesse voltou-se para a área da gestão e das pessoas, através de uma pós-graduação em Gestão de Marketing, de uma Certificação Internacional em Coaching e de uma Certificação Internacional em PNL Practitioner. Esta combinação pouco convencional (Direito, Marketing e Desenvolvimento Humano) haveria de se revelar, anos mais tarde, o alicerce natural da minha atividade como formadora.

Os pilares do percurso de Vânia: Direito, Marketing e Comunicação, Formação e Andragogia, Desenvolvimento Humano.

Sou formadora certificada (CCP, antigo CAP) desde 2008 e comecei a ministrar formação profissional já em 2009, em paralelo com uma carreira profissional a tempo inteiro na área do Marketing e Comunicação.

Ao longo de mais de uma década, fui construindo o meu percurso a trabalhar sempre para os sonhos de outras pessoas (projetos, marcas e objetivos que não eram meus) e fui percebendo, de forma gradual, que nunca tinha sido verdadeiramente feliz a trabalhar dessa forma.

O momento de viragem chegou depois do estágio na Ordem dos Advogados, já com 40 anos de idade. Foi nesse momento que compreendi, com total clareza, que a minha missão profissional é essencialmente social, muito mais do que técnica. Podendo eu própria gerir a minha agenda, impulsionar o meu crescimento e manter-me sempre em aprendizagem, enquanto contribuo para o crescimento de outras pessoas, escolhi, em 2018, ser formadora a 100%. Uma escolha deliberada, construída sobre quase dez anos de formação ministrada em paralelo com outra vida profissional.

Linha do tempo: 2008 certificação CCP, 2009 início da atividade formativa, estágio na Ordem dos Advogados aos 40 anos, 2018 formadora a 100%.

Desde então, tenho continuado a investir na minha formação contínua, com especializações em e-learning, conteúdos digitais, inteligência artificial aplicada à formação e gestão/coordenação de formação, além de competências mais técnicas na área do marketing digital: métricas, Google Ads e Analytics, SEO, publicidade em redes sociais e organização de eventos. Considero esta atualização permanente uma parte inseparável de ser formadora: não se pode pedir aos outros que aprendam ao longo da vida sem se viver isso, na prática, todos os dias.

Do que já vivi como formadora, o que mais me marca, e continua a marcar-me, é a heterogeneidade constante dos grupos com quem trabalho: nada se repete, tudo é novo, todos os dias. E é também isso que torna tão significativo receber, anos depois de uma formação terminar, uma mensagem ou outra de antigos formandos a partilhar comigo o seu sucesso e o seu crescimento. Esses momentos são, para mim, a prova mais concreta de que o trabalho que faço tem e faz todo o sentido.

Um dos momentos mais marcantes do meu percurso foi, precisamente, iniciar a mediação de cursos EFA e assumir-me como formadora de PRA, ajudando os meus formandos na construção valiosa do seu percurso formativo de forma reflexiva, através da elaboração do seu Portefólio Reflexivo de Aprendizagens. Ainda hoje o faço, e em cada momento de acompanhamento orientado, poder estar presente e conhecer a forma como os formandos concretizam as suas aprendizagens e valorizam o seu próprio percurso acaba sempre por ser uma experiência única e insubstituível.

As diferentes aprendizagens que eu própria vou adquirindo com o acompanhamento destes percursos contribuem, também elas, para uma melhoria contínua do meu eu pessoal e profissional. Valorizo particularmente as oportunidades que tenho tido, também a este nível, de conhecer e aprender com diferentes Coordenadores, com perspetivas e formas de trabalho distintas entre si. Ainda hoje dou grande valor a esta multiplicidade de experiências e de formas de agir perante o mesmo tema. E é nesse caminho que pretendo continuar. Um caminho repleto de desafios que me permitem, dentro da minha própria consciência, continuar a evoluir em todas as vertentes: humana e profissional. E, nunca tendo certezas, cito-me a mim própria neste percurso, pois “sinto que quanto mais aprendo, menos sei e, logo a seguir, quero aprender mais”.

É com estes princípios que procuro estar à frente de qualquer grupo: ética, congruência, empatia e responsabilidade profissional sobre o que partilho, como partilho e como envolvo as pessoas na sua própria aprendizagem. Procuro sempre trazer os conteúdos para situações práticas, ligadas ao contexto profissional de quem tenho à minha frente, e criar momentos verdadeiramente reflexivos, que ajudem cada formando a conhecer-se um pouco melhor a si próprio.

“Não quero mudar de caminho. Quero apenas continuar a percorrê-lo, melhor.”

Hoje, ao frequentar este curso de Formador de Formadores e ao aproximar-me do RVCC-For, sinto que estou, uma vez mais, a investir na mesma missão. É esse fio condutor, esta convicção de que aprender e ajudar a aprender são a mesma coisa, que atravessa todo este e-portefólio.

Formadora com microfone, a falar perante um auditório cheio.

02 O processo RVCC-For

O RVCC (Reconhecimento, Validação e Certificação de Competências) é o processo através do qual um adulto demonstra, perante um referencial de competências, aprendizagens adquiridas ao longo da vida por vias formais, não-formais e informais. Aplicado especificamente a formadores (RVCC-For / RVCC Pro), este processo permite a quem já forma há vários anos, muitas vezes sem nunca ter tido uma certificação formal, ver reconhecido aquilo que já sabe fazer na prática.

As quatro etapas do processo RVCC-For: acolhimento e diagnóstico, reconhecimento, validação, certificação.
  1. Acolhimento e diagnóstico — primeiro contacto com o candidato, levantamento do seu percurso, motivações e expectativas face ao processo.
  2. Reconhecimento — fase mais longa e mais pessoal: o candidato constrói o seu e-portefólio reflexivo, articulando a sua história de vida com evidências concretas de competências.
  3. Validação — análise conjunta entre candidato e formador/mediador, confrontando as competências demonstradas no portefólio com o referencial em uso, identificando lacunas a colmatar.
  4. Certificação — prova final perante um júri, de natureza escrita, oral e/ou prática, que pode conduzir a uma certificação total ou parcial.

O papel do formador/mediador não é avaliar no sentido tradicional, mas sim orientar: ajudar o candidato a encontrar, na sua própria história, as evidências de competências que muitas vezes ele próprio não reconhece como tal. É precisamente esta capacidade de mediação, de ajudar outra pessoa a ler-se a si própria com mais clareza, que este curso de Formador de Formadores, e este e-portefólio em particular, me convidam a desenvolver.

Formadora inclinada sobre a secretária de um colega, a acompanhar o seu trabalho num portátil.

03 Reflexão crítica sobre o meu percurso como formanda

No âmbito da Atividade 2.3 deste curso, realizei uma reflexão crítica sobre a minha prática profissional a partir de um questionário de autoanálise. Os resultados revelaram um perfil distribuído, sem uma dimensão claramente dominante, pois obtive pontuações relativamente equilibradas entre planeamento, trabalho em equipa pedagógica, prática letiva e reflexão crítica. Este equilíbrio faz sentido à luz do meu próprio percurso: ter passado por contextos técnicos tão distintos como o Direito, o Marketing e a área Comportamental exigiu sempre uma grande versatilidade, sem espaço para me especializar numa única dimensão da prática formativa.

Estar, neste curso, simultaneamente a reforçar como formar e a ser formada, tornou esta contradição particularmente visível. Produzir muito conteúdo pedagógico, como faço diariamente, não é o mesmo que refletir de forma sistematizada sobre esse mesmo conteúdo. Esta tomada de consciência não ficou, por isso, ao nível da autocrítica: tornou-se o ponto de partida para encarar o registo reflexivo (e este próprio e-portefólio) não como uma tarefa a cumprir, mas como um hábito enriquecedor de melhoria contínua, que quero passar a integrar de forma mais consistente na minha prática.

Formadora de pé, pensativa, num espaço de escritório aberto, junto a um portátil com uma videochamada em curso.

04 Percurso de aprendizagem, módulo a módulo

Reorganizo aqui todo o trabalho realizado ao longo do curso, módulo a módulo, indicando para cada atividade os objetivos de aprendizagem visados, se foi realizada de forma individual ou em grupo, e uma breve nota reflexiva sobre a forma como me dediquei a cada aprendizagem. Mais do que uma lista de entregáveis, é o registo sistemático que a minha própria reflexão crítica (secção 3) me mostrou estar ainda a construir como hábito.

Os cinco módulos: MF1 Diagnóstico de Necessidades, MF2 Conceção da Formação, MF3 Aprendizagem ao Longo da Vida, MF4 Metodologias e Estratégias Pedagógicas, MF5 Simulações Pedagógicas.

Este módulo visou capacitar-nos para a identificação e análise de necessidades de competências e de formação, reconhecendo etapas, métodos e técnicas, e selecionando os instrumentos de diagnóstico mais adequados a cada situação. Trabalhámos também a construção de referenciais de competências e de formação a partir de diagnósticos realizados, e as fases de conceção ou adaptação de perfis de competências.

  • A1 - Instrumentos de Diagnóstico de Necessidades de Competências e de Formação (trabalho de grupo)O objetivo deste trabalho foi compreender e aplicar os métodos de questionário e de análise de desempenho no diagnóstico de necessidades de formação, articulando-os com modelos metodológicos como o Modelo de Discrepância e o Modelo de Gestão por Competências. Dediquei-me sobretudo à fundamentação teórica do trabalho (cruzando autores como Brown, Goldstein e Ford, Kaufman e Guerra-López para os questionários e a análise de desempenho) e à escrita do relatório em voz de grupo, na primeira pessoa do plural, para refletir um debate genuíno entre todos os elementos, e não apenas a soma de contributos individuais. Ver trabalho (PDF)
  • A2 - Lacunas de competências e de formação (trabalho individual)O objetivo deste trabalho foi aplicar métodos e instrumentos de diagnóstico de necessidades de formação a uma função concreta, identificando lacunas de competências. Escolhi a função de Gestor e a competência de Liderança, e apliquei quatro instrumentos complementares (entrevista semiestruturada, questionário de autoavaliação, avaliação de 360 graus e análise de indicadores de desempenho) para sustentar um diagnóstico rigoroso, cruzando sempre múltiplas fontes de evidência antes de tirar qualquer conclusão, em vez de me limitar a uma única perspetiva sobre a lacuna de liderança identificada. Ver trabalho (PDF)
  • A3 - Competências essenciais para uma função (trabalho de grupo)Este trabalho teve como objetivo construir um perfil de competências completo para uma função à escolha do grupo, cruzando conhecimentos técnicos, aptidões práticas e competências comportamentais. Escolhemos, de forma propositadamente pouco óbvia, a função de Especialista em Produção de Vídeos Promocionais no YouTube para uma empresa de pladur, o que nos levou a ir além do óbvio e a pensar em competências tão distintas como o guionismo, o SEO de plataforma, ou o conhecimento técnico do próprio produto, dentro do mesmo perfil. Ver documento 1 (PDF) Ver documento 2 (PDF)

Formadora a apresentar um diapositivo sobre 'Princípios de Liderança' a um grupo de formandos numa sala de formação.

05 Projeção — acompanhar um futuro candidato a RVCC-For

Para tornar tangível tudo o que este curso me ensinou, imagino aqui uma situação hipotética: acompanhar a Manuela, uma candidata fictícia com quinze anos de experiência como formadora informal numa empresa de retalho, responsável por integrar novos colaboradores, mas que nunca teve qualquer certificação formal como formadora.

  1. Acolhimento e diagnóstico — começaria por ouvir a Manuela sem grelha nem guião na mão. Apenas a perguntar-lhe o que já faz e como o faz. É frequente que candidatos como a Manuela não reconheçam como “competências” aquilo que fazem naturalmente há anos. O meu primeiro papel seria ajudá-la a nomear o que já sabe fazer.
  2. Reconhecimento — acompanharia a Manuela na construção do seu e-portefólio, incentivando-a a escrever primeiro a sua história de vida em linguagem livre, sem se preocupar ainda com o referencial, e só depois cruzarmos, juntas, essa narrativa com os domínios de competência a demonstrar, recolhendo evidências como registos de formações que já deu, testemunhos de colegas, ou até fotografias de sessões de acolhimento que dinamizou.
  3. Validação — usaria os mesmos instrumentos que hoje aplico nas minhas próprias simulações pedagógicas (grelhas de observação e fichas de reflexão) adaptando-os a uma simulação real de uma sessão de acolhimento dinamizada pela Manuela, para identificar com ela pontos fortes e áreas ainda a desenvolver antes da prova final.
  4. Certificação — prepararia a Manuela para a prova perante júri através de simulações sucessivas, aplicando exatamente a lógica que estudei nas minhas simulações pedagógicas, com foco no antes (preparação e gestão da ansiedade), durante (postura serena, foco no essencial) e depois (analisar o desempenho sem juízos de valor, apenas com foco em evidências observáveis).

Este exercício de projeção confirma-me algo que já sentia antes de começar este curso, mas que agora consigo justificar com mais fundamento teórico e metodológico: o papel de formador de RVCC-For não é o de quem julga, mas o de quem ajuda outra pessoa a ver com mais clareza aquilo que já é capaz de fazer.

Formadora numa reunião de equipa à volta de uma mesa, com portáteis abertos e um cronograma de projeto num quadro branco.

06 Autoavaliação final

Construir este e-portefólio, colocando-me deliberadamente no papel de candidata, ensinou-me mais sobre o processo RVCC-For do que qualquer leitura teórica poderia ter feito. Custou-me, tal como confirmou a minha reflexão da Atividade 2.3, manter um registo verdadeiramente sistemático das minhas próprias aprendizagens, sendo que foi exatamente esse desconforto que me permitiu compreender, por dentro, a dificuldade que um dia vou pedir a outros candidatos para superarem.

Fico também com uma consciência mais clara das minhas próprias áreas a desenvolver: preciso de transformar o registo reflexivo numa prática regular, e não apenas num exercício pontual associado a avaliações de curso. Por outro lado, sinto-me hoje mais preparada para orientar outra pessoa neste processo, precisamente porque o vivi eu própria, com todo o desconforto e todo o valor que isso trouxe.

Termino este e-portefólio com a mesma convicção com que o comecei: quero continuar a fazer o que faço (acompanhar pessoas na sua aprendizagem) mas fazê-lo cada vez melhor. Este curso, e este exercício em particular, são mais um passo nesse caminho.

Formadora a rir-se numa pausa para café com colegas, junto a uma máquina de café e uma planta.